As desigualdades energéticas

a

a

(Opinião, por Luís Queirós)

A energia é, sabemos agora, o principal factor criador da riqueza de qualquer nação, e é também responsável pelo bem-estar e conforto da sua população. Não espanta, por isso, que exista uma correlação quase perfeita entre o PIB e o consumo energético dos diferentes países.

É costume citar o exemplo dos Estados Unidos da América para ilustrar as gritantes desigualdades que existem no acesso à energia entre os diferentes povos do planeta. E isto porque a população americana, que representa uns escassos 5% da população mundial, é responsável por 20% do consumo energético, e por 25% do consumo mundial de petróleo. O consumo per capitade petróleo nos EUA é de 10 litros por dia, o dobro do da Europa, e 5 vezes a média mundial.

Na China, esse valor mal ultrapassa 1 litro por dia. E sabemos hoje que não será possível à China atingir a capitação de 5 litros de petróleo por dia, valor que corresponde a capitação do Japão ou da Coreia do Sul. Pois caso isso acontecesse, a China passaria a consumir 37 milhões de barris por dia, mais 30 milhões do que aquilo que consome actualmente. Ora, esse acréscimo equivaleria a absorver toda a exportação actual dos países da OPEP. Mas a verdade é que com o elevado crescimento que a China está ater, tal aspiração é perfeitamente expectável e até legítima.

Esta é, talvez, a maior contradição do nosso tempo, e sem solução à vista. Ela pode ser a causa próxima de um conflito mundial, provocado pela disputa das fontes de energia, localizadas sobretudo no Médio Oriente, à volta do Golfo Pérsico.

A China tem resolvido os seus problemas energéticos à custa do carvão, cujo consumo disparou nos anos recentes, a ponto de a China, o maior produtor mundial, já ter importado carvão. Isso permitiu aos chineses, levar a electricidade a mais de 90% da sua população. Mas a massificação do automóvel que está em curso acelerado, vai exigir, nos próximos anos, grandes quantidades de petróleo. E isso vai desestabilizar, pelo aumento previsível do preço do crude, a já tão débil situação económica internacional. E dificultar a retoma tão necessária à saída da crise e ao relançamento do emprego.

Mas as desigualdades no acesso à energia tornam-se ainda mais flagrantes se olharmos os consumos das populações mais empobrecidas. Um estudo que acabaantecipação ao WEO 2010 (World Energy Outlook, a sair no início de Novembro, e que pode ser consultado aqui), ilustra bem essa situação.

Ficamos a saber que grandes estratos populacionais vivem ainda numa fase muito primitiva no que respeita ao consumo energético. Para ilustrar esta asserção refiro este facto extraordinário: os 800 milhões de pessoas da África subsariana (excluindo a África do Sul) consomem anualmente 40 TWh(Terawatts hora) de energia eléctrica, um pouco menos do que o consumo anual de Portugal. Nessa vasta região africana a electricidade chega apenas a 28% da população.

Revela ainda o estudo que quase 1,7 mil milhões de pessoas (sobretudo em África e na Ásia) ainda não têm acesso à electricidade, e que quase 2,5 mil milhões ainda utilizam a lenha para cozinhar.

Garantir o acesso destas populações à electricidade e a outras forma de energia é mais um problema que o mundo vai ter de enfrentar. A energia é um bem escasso, interessa sobretudo às grandes potencias, mas não se podem ignorar as carências dos mais pobres.

IN: http://poscarbono.blogspot.com/

18/Outubro/2010

%d bloggers like this: