A Família La Croce

É sempre com algum receio, mas muita excitação, que voltamos a viver. Nascidos da escrita do Senhor Luigi Pirandello há mais de 80 anos, somos personagens com vivências acumuladas de muitos palcos pisados em experiências teatrais diversas. Vivemos um pouco por todo o mundo, ficámos conhecidos ao longo das épocas, mas estamos encerrados em palavras, em páginas estreitas durante tempos, para nós infinitos, até que alguém se lembra de nos usar novamente. Aí a vontade de ser cresce e projectamo-nos com força, tomando os actores, lutando para que nos vivam com energia e gosto (não admira que os amadores fiquem esgotados). Somos personagens com alma, não nos julguem se às vezes parecemos demasiado furiosos e excessivos. É algo que não conseguimos controlar. Quem vive constantemente em clausura, não encontra um equilíbrio quando é deixado livre.

Gostaríamos de informar quem nos está a ler que em breve poderão estar connosco, conhecer-nos, sentir as nossas mágoas, paixões, alegrias, devaneios. O teatro corre-nos nas veias, o texto, as interpretações, o cenário, os figurinos, o público, tudo isto alimenta-nos e ressuscita-nos. Por momentos a nossa história de amor e ciúmes repete-se, revivemos os sentimentos e as acções, estamos outra vez uns com os outros. É um prazer sublime.

Assim, já com ensaios quentes e vibrantes, dirigidos pelos encenadores apartianos, a Família La Croce adapta-se aos seus actores (e vice-versa), a Dona Inácia, a mãe, treina a garganta e os tabefes, o Sr. Palmiro, o pai, visita às escondidas um cabaret, procurando fugir à repressão da mulher. Os oficiais ensaiam os seus dotes musicais e de sedução, as meninas La Croce fingem a ingenuidade e exercitam a provocação, com excepção da Mommina, enamorada pelo mais ciumento dos oficiais, o Sr. Verri. A cantora do cabaret chora as suas angústias, as suas bailarinas gozam o cenário, o público aguarda o início do espectáculo… para breve, muito breve. Quase tudo a postos para: “Esta noite improvisa-se”, de Luigi Pirandello, encenação Sandra Faleiro, pelo grupo de teatro “teatroàparte”, em cena….

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